29/09 -> 12/11
Exposição de Maria Trabulo

A Ilha e a XYZ Bookshop convidaram a artista portuguesa Maria Trabulo para uma exposição individual do seu recente projecto 'Memória de Pedra', com inauguração no próximo dia 29 de Setembro a partir das 19:00 horas.

Memória de Pedra

"Quando só nos conseguimos lembrar, como podemos esquecer?

'A carvão desenhei todas as noites naquela cozinha as imagens lugar-comum da história da arte. Limpo a mesa e retiro da mochila a fotografia dele que tinha no caderno. Todos éramos obrigados a possuir uma. Começo pelo olhar, para mim o mais incómodo. Ainda hoje me é difícil desenhar o olhar de alguém e talvez por isso evite desenhar retratos. Tem os olhos pequenos e azulados, traço suavemente a linha superior do olho e escureço a interior para que se perceba que os olhos são claros. É um olhar que causa proporções estranhas no desenho, o espaçamento entre os olhos não é comum, são muito próximos. Não acerto ao primeiro traço, apago e repito até estar como na memória.'

 

O funcionamento do sistema de memória do cérebro é semelhante ao de desenhar com uma esferográfica sobre papel. Nos breves instantes de secagem da tinta, é possível manchar o que se desenhou. No entanto, após consolidada a memória, em pouco ou nada se altera. As memórias podem desvanecer ao longo dos anos como um desenho antigo, mas por mais vezes que seja desembrulhado e observado, o seu conteúdo permanece.

Estudos científicos recentes argumentam que o processo desenvolvido pelo cérebro é o mesmo quer na construção de novas memórias como no seu apagamento. Partindo deste princípio, e da ideia que a memória humana é moldável, pode desencadear-se o processo que apelidaram de 'Reconsolidação', e que consiste (a par da ingestão de medicação) no intenso revogar e reviver de uma memória até que esta se torne maleável e possa ser alterada ou apagada. Cria-se uma memória no interior de outra, apagando-a. A reconsolidação pode assim ser um mecanismo do cérebro para refazer memórias. Talvez o que nos impeça de viver no passado.

A par das estratégias de esquecimento, procuramos formas de poder sempre lembrar algo ou alguém. A pedra, ou as pedras, ou as rochas, ou as montanhas, têm vindo a assistir aos acontecimentos da Humanidade e ao que a ela precedeu. São como um público que nunca se cansa, ou não se pode cansar porque é para já imóvel. Às que se movem, através das pessoas, há quem faça delas guardião de memórias. Refiro-me a memoriais, esculturas e estatuetas, lápides, placas, ou simples pedras que apanhamos no caminho e levamos connosco para que sempre nos lembrem de um lugar especial. Existe um ritual ou gesto de esquecimento/memória chamado 'A Pedra da Memória' que consiste em escolher e recolher uma pedra de um lugar que tenha significado. Segurando a pedra na mão, percorrem-se o lugar ou lugares que nos remetam para o acontecimento ou pessoa que queremos esquecer. A intenção é a de reviver todas as memórias, transmitindo a sua energia para a pedra que seguramos, tornando-se ela sua portadora. Findo o momento, guarda-se a pedra para não mais a procurar a não ser que queiramos recordar o que decidimos esquecer.

 

De pedras se fizeram as muralhas, muros e paredes que hoje nos ajudam a construir a memória das civilizações e povos do passado. Dessas e de outras pedras se constroem as paredes que nos circundam nas cidades e espaços que habitamos, testemunhando e suportando o que sucede no nosso presente, para meses ou anos mais tarde sermos lembrados desses acontecimentos normalmente em jeito de surpresa. Seja esta o que resta de um cartaz de uma manifestação anti-austeridade de 2011, um 'Liberdade' ou '25 de Abril' semi-apagados, o tag que fizemos numa noite de bebedeira, mais um sinal de Vende-se, um "Amo-te" que escrevemos naquela ponte e que já não queremos sentir, o cartaz de um concerto a que fomos ou gostaríamos de ter ido, o protesto de alguém, os arranhões deixados por um carro que ali embateu, um sinal que foi pintado por cima, etc. E depois há as imagens que nos chegam como brisas em lugares quase absurdos, esvoaçando entre o perfume que um desconhecido com quem nos cruzamos à saída do elétrico em Viena usa, o cheiro a mar que o vento traz consigo até ao centro da cidade, um som familiar ou o tom da voz de alguém. Tentamos esquecer, mas as memórias e imagens esvoaçam na nossa mente como uma cortina incontrolada pela corrente de ar. Impossível de fechar ou abrir, sequer de atravessar, congelada entre duas forças, o lembrar e o esquecer. Imóvel como nós, quando essa imagem nos chega à memória.

 

Há memórias que nos são intrínsecas, coisas, pessoas, lugares que não conseguimos esquecer. Mas poderá acontecer que quanto mais recordamos algo mais isso se torna intrínseco a nós? Ou será que inconscientemente o/a moldamos de forma a que se torne suportável? Aprenderemos a viver com o que queremos esquecer? Será assim o esquecimento?

 

E talvez por isso continuemos a saber as coisas de cor, mesmo aquilo que não fazemos há anos, seja o retrato de alguém que detestamos, um hino nacional, uma prece, uma revolta, a letra de uma canção, um trajecto, um amor.

 

Balançamos entre a indecisão do querer esquecer e o desejo de para sempre lembrar, ou o infortúnio de não sermos capazes de recordar o que não queremos esquecer." (Maria Trabulo)

Maria Trabulo

Maria Trabulo vive e trabalha entre o Porto e Viena.

 

Mantém uma prática artística quer individual como em colectivo desde 2010, tendo realizado várias exposições individuais e colectivas em Portugal e no estrangeiro. Foi membro fundador dos colectivos Expedição e Sintoma no Porto. O seu trabalho tem sido premiado por instituições internacionais relevantes, e tem sido convidada a participar como artista em diversas publicações, seminários e residências artísticas. Adicionalmente, em consequência do seu interesse em colaborações, tem no decurso do seu trabalho desenvolvido várias colaborações com profissionais do campo das artes, música, design, ciência, arquitectura e teatro.

Possui uma licenciatura em Belas Artes pela Faculdade de Belas Artes do Porto e pela Academia de Artes da Islândia e actualmente frequenta o programa de Art&Science na Angewandte Kunst Akademie em Viena, onde realiza uma investigação artística com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian.